Uma empresa amplia o galpão. Um condomínio troca a fachada. Um hospital reforma uma ala sem parar o atendimento. Em todos esses casos existe um intervalo, que pode durar meses, em que a proteção de sempre deixa de valer e quase ninguém percebe.
Por que a apólice patrimonial não resolve
O seguro patrimonial cobre o imóvel no estado em que foi declarado. Obra muda esse estado: abre-se laje, remove-se parede, há andaime, solda, corte, material estocado no pátio e circulação de gente que não é do quadro.
Por isso as apólices patrimoniais costumam trazer exclusão ou limitação expressa para danos decorrentes de obra, reforma ou ampliação acima de determinado valor ou escopo. Não é pegadinha: é que aquele risco não foi precificado.
O resultado prático é um período de exposição em que:
- O dano à parte em construção não está coberto.
- O dano causado a terceiros pela obra pode não estar coberto.
- O agravamento do risco, se não comunicado, pode afetar a própria apólice vigente.
O que cobre o que
Três instrumentos distintos, com funções distintas.
Riscos de engenharia. Protege a obra em si: a construção, montagem ou instalação durante a execução. Cobre incêndio, desabamento, erro de execução, roubo de material, fenômeno natural, e pode incluir manutenção após a entrega.
Responsabilidade civil de obras. Responde pelos danos causados a terceiros e a imóveis vizinhos: trinca na parede do vizinho, queda de material, dano a veículo, lesão a passante.
Seguro garantia. Garante o cumprimento do contrato pelo executante. Não protege contra acidente, protege contra inadimplemento.
São contratações separadas. Ter uma não implica ter as outras.
A pergunta que define a responsabilidade
Em obra contratada, a dúvida recorrente é quem deve contratar o quê. A resposta começa no contrato, e por isso ele precisa ser explícito.
Verifique, antes de a obra começar:
- O contrato exige seguro da construtora? De quais modalidades, com quais limites?
- A apólice da construtora está vigente e cobre este contrato especificamente?
- O contratante figura como segurado adicional ou como beneficiário?
- Qual a vigência, e ela cobre o prazo real da obra, incluindo atrasos?
- O que acontece se a construtora abandonar a obra no meio?
Exigir certificado de seguro antes da primeira medição é prática simples e evita descobrir a lacuna no pior momento.
O caso específico do condomínio
Condomínio em reforma de fachada é uma das situações de maior exposição que existem, e raramente tratada como tal.
Há trabalho em altura, material suspenso sobre área de circulação, veículos estacionados embaixo, moradores e visitantes transitando. Um único objeto que cai gera dano material e pode gerar dano pessoal.
Nesse caso, o síndico deve conferir se a empreiteira tem responsabilidade civil de obras vigente, se o condomínio consta como beneficiário, e se a apólice condominial foi comunicada sobre a obra.
Comunicar a obra à seguradora não é formalidade burocrática. É o que mantém a apólice principal íntegra durante o período de maior risco da vida do imóvel.
O custo relativo
O prêmio de riscos de engenharia costuma representar uma fração pequena do valor da obra. Comparado ao custo de um sinistro durante a execução, que soma o dano material, o atraso, a responsabilidade perante terceiros e eventualmente uma ação judicial, a conta não é difícil de fazer.
Difícil é fazê-la depois.