É a conversa mais desagradável que um corretor pode ter com um cliente, e ela acontece sempre no pior momento possível: depois do sinistro.
A empresa teve um prejuízo de 800 mil. A apólice tinha limite de 3 milhões. O prejuízo cabe folgado dentro do limite. Mesmo assim, a indenização sai em 480 mil. E a explicação, tecnicamente correta, soa como desculpa: cláusula de rateio.
Como o mecanismo funciona
O seguro patrimonial parte de um princípio simples: o prêmio é calculado sobre o valor que você declarou ter em risco. Se você declara menos do que tem, paga menos do que deveria. A seguradora compensa isso no momento da indenização, pagando na mesma proporção.
A conta é direta:
Indenização = prejuízo × (valor declarado ÷ valor real em risco)
No exemplo acima: a empresa declarou 3 milhões, o valor real em risco era 5 milhões. A proporção é de 60 por cento. O prejuízo de 800 mil é indenizado em 480 mil, e os 320 mil restantes ficam com a empresa.
Note que não é preciso haver sinistro total para o rateio aparecer. Ele incide em qualquer prejuízo parcial, que é justamente a imensa maioria dos casos.
Por que tanta empresa está subsegurada sem saber
Praticamente nunca por má-fé. As causas são sempre as mesmas:
A apólice foi renovada no automático. O valor declarado é o mesmo de cinco anos atrás, enquanto o custo de reposição de máquina, estoque e obra subiu muito acima da inflação geral.
Declarou-se valor contábil em vez de valor de reposição. O balanço mostra a máquina depreciada a 80 mil. Repor aquela máquina hoje custa 400 mil. O seguro trabalha com reposição, não com depreciação.
O estoque foi declarado pela média, e o sinistro ocorreu no pico. Indústria e comércio têm sazonalidade. Declarar a média do ano e sofrer o incêndio em novembro, com o galpão cheio, produz rateio.
Benfeitorias e melhorias não entraram na conta. A empresa investiu em mezanino, câmara fria, instalação elétrica nova, sala limpa. Nada disso foi comunicado.
Equipamentos novos nunca foram incluídos. Compra-se máquina ao longo do ano e ninguém avisa o seguro.
O que fazer antes da próxima renovação
A correção é trabalhosa uma vez e simples nas renovações seguintes.
- Levante o valor de reposição a novo de edificação, instalações, máquinas e equipamentos. Reposição, não valor contábil, não valor de mercado.
- Considere o pico de estoque, não a média, ou contrate cláusula específica para variação de estoque.
- Inclua benfeitorias feitas desde a última renovação, mesmo em imóvel alugado.
- Verifique se existe cláusula de leniência, que dispensa o rateio quando a diferença é pequena, e saiba qual é a margem.
- Comunique aquisições relevantes durante a vigência, sem esperar a renovação.
Onde a inspeção entra nessa história
Valor de reposição não se descobre em planilha. Descobre-se andando pela operação, vendo o que existe, em que estado, com que capacidade e o que seria necessário para repor aquilo em funcionamento.
É por isso que a análise de risco da Avantia começa por uma visita técnica e não por um formulário. O formulário captura o que o cliente lembra de declarar. A inspeção captura o que está lá.
A diferença entre as duas coisas tem nome, e aparece na indenização.